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O relato nas mídias leiga e especializada
acerca do uso desenfreado de anti-inflamatórios
orais por praticantes de corrida em todo o
mundo trouxe à tona uma polêmica
ainda muito longe de ser encerrada. A situação
fica ainda pior quando profissionais da área
da saúde orientam seus pacientes a
utilizar este tipo de medicamento quando surgem
sintomas de dor, ou mesmo antes de provas
mais longas, o que tornou a questão
ainda mais complicada.
Os
principais agentes anti-inflamatórios
são representados pelos glicocorticóides
e pelos anti-inflamatórios não
hormonais (ou não esteróides),
conhecidos pelas siglas AINH ou AINE, que
compõem a classe de medicamentos mais
utilizada no mundo. Os AINH’s são
assim chamados por não derivarem de
compostos hormonais em suas fórmulas.
Existem
mais de 50 AINH’s comercializados atualmente,
porém, nenhum deles é verdadeiramente
ideal no controle ou na modificação
dos sinais e sintomas da inflamação.
Estas drogas possuem três tipos principais
de efeitos:
1-
Efeito anti-inflamatório: modificação
da reação inflamatória
2- Efeito analgésico: redução
da dor
3- Efeito antipirético: redução
da febre
Como
funciona - Em geral, todos estes
efeitos estão relacionados com a ação
primária destas drogas, ou seja, a
inibição da enzima araquidonato
ciclooxigenase (COX), responsável pela
produção de substâncias
mediadoras dos processos inflamatórios
nos tecidos. Existem dois tipos de COX: COX-1
e COX-2, esta última produzida nas
células inflamatórias quando
estão ativadas.
A
ação antiinflamatória
dos AINH’s ocorre pela sua inibição
da COX-2, e é provável que seus
efeitos indesejáveis decorram, em grande
parte, da inibição da COX-1.
Novos compostos com ação seletiva
apenas sobre a COX-2 já estão
sendo comercializados há algum tempo,
como, por exemplo, Celebraâ (celecoxibe),
Arcoxiaâ (etoricoxibe) e Vioxxâ
(rofecoxibe), estes dois últimos retirados
do mercado pelo fabricante após a determinação
da Anvisa, porém, esta seletividade
é apenas aproximada.
No
Brasil, existem dois anti-inflamatórios
que são bem conhecidos e muito utilizados
pelos corredores: Advilâ (ibuprofeno)
e Flanaxâ (naproxeno sódico).
Apesar de serem drogas diferentes, atuam no
controle do processo inflamatório e
redução da dor pela inibição
da síntese de prostaglandinas, como
mencionado anteriormente, substâncias
que atuam na inflamação. Não
existem evidências científicas
que mostrem uma absorção adequada
destas drogas, ou de qualquer outro AINH,
durante exercícios físicos,
fato que traz dúvidas quanto à
eficácia e/ou à vantagem da
sua administração nestas circunstâncias.
E
como produzem efeitos colaterais indesejáveis,
deve ser restrita a situações
muito específicas e por tempo limitado
apenas, não justificando seu uso para
o controle de dores musculares do dia seguinte,
como veremos adiante.
Os
AINH’s mostram-se particularmente eficazes
contra a dor associada à inflamação
decorrente de lesão tecidual, visto
que diminuem a produção das
substâncias que podem sensibilizar os
receptores das células. Porém,
são responsáveis por quase 25%
das reações adversas a drogas
notificadas em alguns países, como
no Reino Unido, e frequentemente figuram nos
relatórios de mortes relacionadas ao
uso de medicamentos.
Efeito
colateral - Os efeitos indesejáveis
mais comuns dos AINH’s consistem em
problemas gastrointestinais (risco três
vezes maior se comparado a não usuários
de AINH’s): azia, diarréia, náuseas,
vômitos, gastrite, sangramentos e até
perfurações do aparelho digestivo,
induzidas principalmente pela inibição
da enzima COX-1, responsável pela diminuição
da acidez e proteção da cobertura
do trato gastrointestinal.
Portanto,
ingerir estes medicamentos mesmo com alimentos
não protege o usuário de seus
efeitos colaterais. As lesões da pele
constituem o segundo efeito indesejável
mais importante dos AINH’s, seguidas
dos problemas renais que estas drogas são
capazes de provocar, como insuficiência
renal aguda, que é reversível
com a interrupção da administração
do fármaco.
Recentemente,
alguns estudos demonstraram um aumento do
risco cardiovascular (infarto, hipertensão
não controlada) em pacientes que utilizavam
AINH’s por longo tempo, fato que determinou
o laboratório Merck Sharp & Dohme
a retirar do mercado mundial os medicamento
Vioxxâ e a apresentação
de 120 mg do Arcoxiaâ.
Dessa
forma, os anti-inflamatórios não
hormonais são medicamentos que devem
ser utilizados com critérios rigorosos,
respeitando sempre a prescrição
médica, e indicados em situações
particulares e por um tempo curto e pré-determinado
de tratamento. Todos os profissionais de saúde
devem orientar seus pacientes ou alunos em
relação aos perigos da automedicação,
pois ainda pior do que ela é a “autodesmedicação”.
Estudos
sobre a eficácia e a disponibilidade
para o organismo destes medicamentos quando
ingeridos durante exercícios físicos
são escassos e inconclusivos, portanto,
a prática de ingerir AINH’s antes
de provas curtas ou longas não faz
sentido fisiológico.
As
dores músculo-esqueléticas próprias
de treinos mais intensos ou competições
são causadas por microlesões
nos tecidos conjuntivos que envolvem a musculatura,
e a dor faz parte do processo inflamatório
de reparação destes tecidos.
Não é à toa que seu técnico
lhe orienta a realizar um treino regenerativo
no dia seguinte às provas. O uso de
gelo ainda se mostra como um potente agente
analgésico e anti-inflamatório,
sem trazer os efeitos indesejáveis
dos AINH’s.
Bibliografia:
-
Rang and Dale; Farmacologia, Ed. Elsevier,
2001. Calabrese, L. & Rooney, T.; The
Use of Nonsteroidal Anti-inflamatory.
-
Drugs in Sports, The Physician and SportsMed,
vol. 14, 1986.
Fonte:
Dr. Neto / Webrun
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INICIAL
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