
Doping
de Montgomery já era cogitado por brasileiros
A
declaração do ex-atleta norte-americano
Tim Montgomery, que confessou ter competido
dopado nos Jogos Olímpicos de Sydney,
em 2000, não pegou de surpresa os atletas
brasileiros do revezamento 4 x 100 metros
rasos. Claudinei Quirino, André Domingos,
Vicente Lenílson e Edson Luciano, que
foram prata na ocasião e agora devem
herdar a medalha de ouro conquistada pelos
Estados Unidos, já cogitavam a possibilidade
de algum adversário ter participado
da competição de forma irregular.
"Sabia
que existia esta possibilidade, mas agora
que ele deu esta declaração
fica claro que o meu pensamento era correto",
disse Lenílson.
Já
Domingos lembrou que o histórico de
Montgomery mostra que ele foi um atleta cheio
de problemas. Por uso de doping, ele teve
todos os seus recordes anulados. Além
disso, se envolveu em um esquema de fraude
bancária e foi preso por tráfico
de heroína.
"O
Tim Montgomery tem um histórico de
doping, foi pego várias vezes e é
casado com Marion Jones, que também
foi flagrada em diversas oportunidades. Ele
é envolvido em falsificação
de cheques, fraudes, e vários outros
crimes, o currículo dele não
é brincadeira não", protestou.
Ele
deixou claro que os brasileiros já
suspeitavam que havia algo errado com o adversário.
"A gente tinha a suspeita, mas até
que se torne claro não dá para
falar nada, não podemos acusar até
que existam as provas", assinalou.
Claudinei
Quirino, por sua vez, afirmou que sempre cogitava
esta possibilidade quando via notícias
dos outros casos de doping de Montgomery.
"Isso começa a passar pela sua
cabeça, afinal, se ele estava usando
em outros casos, porque não em 2000
também", declarou.
Felicidade
e revolta
Ao ficarem sabendo da confissão de
Tim Montgomery, os atletas brasileiros, por
enquanto medalhistas de prata em Sydney, se
mostraram contentes com a possibilidade de
garantirem para o Brasil o único ouro
daquela Olimpíada. No entanto, não
puderam esconder a frustração
por não terem subido no lugar mais
alto do pódio há oito anos.
"A
sensação é de felicidade,
mas ao mesmo tempo de revolta. Afinal, se
o Montgomery não tivesse a ousadia
de ele mesmo confirmar que usou doping, seríamos
prata para o resto da vida. Quantas vezes
será que o Brasil não merecia
ser ouro e não chegou porque outro
atleta usou doping?", questionou Vicente
Lenílson.
O
brasileiro deixou claro que a felicidade agora
não pode mais ser completa. "Espero
que a medalha possa chegar até mim,
mas este momento é de revolta. Poderíamos
ter tido um futuro melhor", assinalou.
Já
Domingos lamentou não ter vivido um
momento de glória maior em Sydney.
"Fiquei meio frustrado, afinal sei que
a emoção não será
mais a mesma. Quer coisa mais linda do que
ouvir hino nacional dentro do estádio
olímpico? Agora a gente vai simplesmente
herdar, vão só nos entregar,
não vai ser dentro de um estádio,
não vai ter pódio, o sentimento
é frio".
Para
Quirino, ficará para sempre a frustração
de não ter alcançado a glória
máxima naquela ocasião. "No
momento é que é gostoso, e seria
a única medalha de ouro do Brasil em
Sydney. Nossa vida poderia ter mudado, até
financeiramente, com mais dinheiro de patrocínio
e uma imagem mais forte", lamentou.
Depoimento
de Montgomery
O
ex-velocista norte-americano Tim Montgomery
está no centro de mais uma polêmica.
Depois de ter todos os seus recordes anulados,
envolver-se em um esquema de fraude bancária
e ser preso por tráfico de heroína,
ele confessou que competiu dopado na Olimpíada
de Sydney, em 2000.
"Tenho
uma medalha de ouro que não consegui
por minha habilidade. Não quero tirar
os méritos dos outros, apenas os meus.
Peço desculpas às outras pessoas
naquela equipe de revezamento", afirmou
o ex-atleta, em entrevista à rede de
TV HBO, referindo-se à conquista no
revezamento 4 x 100 metros.
Montgomery
disse que usou testosterona antes de uma das
eliminatórias da prova. Ele não
participou da final, vencida pelos norte-americanos,
com o Brasil na segunda colocação.
Caso os Estados Unidos sejam punidos, a equipe
brasileira - representada por Claudinei Quirino,
Edson Luciano, Vicente Lenilson e André
Domingos - pode herdar a medalha de ouro.
O
comitê olímpico norte-americano
já manifestou-se sobre o caso. "Se
Tim Montgomery trapaceou nos Jogos, então
ele deve entregar sua medalha voluntariamente,
como outros integrantes da equipe olímpica
de 2000 já fizeram", disse Darryl
Seibel, porta-voz da entidade.
Nesta
terça-feira, o Comitê Olímpico
Internacional (COI) disse que vai tomar as
medidas necessárias sobre o caso. A
Iaaf, entidade máxima do atletismo,
afirmou que precisa de uma confissão
por escrito antes de acionar seu departamento
antidoping para analisar a situação.
Fonte:
O Estadão
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