Enquanto
o atleta profissional treina, come e descansa profissionalmente,
o amador normalmente encaixa seu treino, às
vezes quase profissional, em algum espaço
da agenda diária, talvez entre uma reunião
e outra no trabalho, acompanhado por uma dieta e
um descanso "amadores".
Fica
então a questão, válida tanto
para amadores quanto para profissionais: como otimizar
sua recuperação e como saber quando
é dia de treino forte e quando é dia
de descanso ?
Começando
de trás para frente, vamos falar sobre as
ferramentas disponíveis para saber o que
fazer no dia-a-dia do treinamento. Alguns métodos
estão sendo criados e testados, tendo como
alvo definir o melhor treino a se fazer, ou não
fazer, numa base diária. No entanto, ainda
estão longe de estar prontos e disponíveis,
apesar dos softwares que já fazem diversos
cálculos sobre trabalho realizado, stress
de treino e outras variáveis interessantes.
AVALIE-SE
DE VEZ EM QUANDO. Para avaliações
a longo prazo, uma boa medida é o uso de
séries padrão sub-máximas.
Sua marca de performance máxima também
é um indicador de seu nível de condicionamento,
porém adicionar um teste máximo extra
em sua planilha a cada 3 ou 4 semanas, só
para saber se o treino está andando bem,
já seria um passo em direção
às lesões e ao overtraining.
Séries
sub-máximas e sua subsequente recuperação
são muito mais convenientes, e se sua planilha
tiver poucos dias você ainda pode fazê-las
antes de um treino mais sério. A série
pode, dentro de certos limites, ser qualquer uma.
Pode ser um 5 km em 30 minutos, podem ser 8 x 400
m em 1:45 com 30 segundos de pausa, enfim, você
escolhe, desde que não seja uma série
máxima, mas que exija algum esforço.
Tente
fazer a série o máximo possível
dentro do tempo especificado, não forçando
nem ficando pra trás do planejado. Marque
sua frequência cardíaca imediatamente
ao final da série e 1, 2, 3, 4 e 5 minutos
após. Vale usar frequencímetro ou
medir em alguma veia (a maioria dos corredores utiliza
o pescoço ou o pulso para tal, mas é
possível utilizar veias que passam no quadril
ou qualquer outra mais superficial).
Você
terá uma curva como a da figura,
e ao longo do tempo outras séries vão
sendo adicionadas ao gráfico, mostrando se
seu condicionamento está melhorando ou piorando.
Uma melhora de capacidade é indicada por
uma menor frequência cardíaca final
e também por uma queda mais rápida
em direção aos valores de repouso,
enquanto a deterioração do condicionamento
se evidencia por uma frequência cardíaca
que custa a baixar.
Neste
dia, faça também uma pequena anotação
sobre o que você sentiu durante a série,
como grau de esforço de 1 a 10, por exemplo.
Lembre-se também de estar sempre descansado
na hora de realizar a série, de preferência
tendo repousado adequadamente no dia anterior.
Já
que ainda não temos ferramentas para saber
com certeza o que fazer a cada treino, uma alternativa
é que a recuperação seja maximizada
a cada treino. Entram aqui diversos produtos e técnicas
que prometem - prometem, veja bem - melhorar a recuperação
de atletas. Antes de começar a falar deles,
é importante saber alguns detalhes.
A
maioria das técnicas não é
comprovada, isso se devendo a falhas ou faltas de
estudos a seu respeito ou mesmo devido aos marcadores
de recuperação utilizados, muitas
vezes inespecíficos. Um exemplo rápido:
estudo mostra que a ingestão de uma determinada
proteína logo após o exercício
não melhora a performance em um exercício
seguinte, porém alguns marcadores celulares
de formação de proteínas estão
aumentados. Isso quer dizer que a tal proteína
acelera a recuperação? Depende...
se você só olhar a performance do segundo
teste, não; mas é provável
que a empresa que vende a proteína em pó
irá usar o aumento do marcador para dizer
que seu produto acelera a recuperação
muscular - o que também não é
mentira. Isso é o que irá ocorrer
com a maioria das técnicas. Alguns dos indicadores
utilizados nas pesquisas podem ser positivos, enquanto
outros não se alteram.
FRIO
E CALOR. A idéia de hidroterapia
é antiga, e os métodos são
os mais diversos. Imersão em banheiras de
água fria, gelada, quente, ou aplicação
de bolsas de água quente ou fria, ou mesmo
técnicas que alternem frio e calor são
oferecidas aos atletas. A teoria maior é
que o frio oferece a diminuição de
inchaço e edema, enquanto o calor aumenta
a irrigação sanguínea na região,
acelerando os processos metabólicos existentes.
Apesar
de haver evidências de que a imersão
em água fria acelere a remoção
de lactato sanguíneo, há cada vez
mais evidências de que a simples existência
de lactato circulante (como é o caso no pós
exercício) pouco tem a ver com fadiga. Apesar
disso um achado comum em estudos é que a
crioterapia (aplicação de frio) diminui
a sensação de dor.
Por
outro lado, um estudo de 2006 mostrou pessoas que
faziam imersão em água fria (5-10ºC),
após as sessões de treino de musculação,
apresentaram menos adaptações ao treino
do que as que não fizeram a imersão
em água fria. A manipulação
de temperatura deve ser feita com cuidado, pois
muitas técnicas não conseguem mudar
mais que a temperatura superficial do corpo, e diminuir
a temperatura local abaixo de 15ºC pode até
mesmo aumentar a inflamação. A própria
camada de gordura sob a pele irá influenciar
a temperatura muscular quando bolsas de frio ou
calor são administradas.
COMPRESSÃO.
A indústria de materiais esportivos não
ficou pra trás no segmento de recuperação
de atletas, e embora as vestes de compressão
não sejam muito comuns entre os corredores,
as meias de compressão estão se tornando
mais e mais populares. Isso é bom, no sentido
de que atraiu diversas pesquisas sobre o seu uso.
Apesar do maior corpo de pesquisa, seu uso ainda
é muito controverso e muito mais impulsionado
pelo fato de grandes estrelas do atletismo as usarem.
Alguns
trabalhos mostram algum benefício em seu
uso, porém os mecanismos para tal ainda são
obscuros e as teorias propostas de que as vestimentas
de compressão aumentam a retirada de metabólitos
e facilitam o retorno venoso não se comprovam
tão facilmente. As evidências mais
fortes ficam para uma diminuição de
inchaço, talvez por menor movimento dos tecidos
moles. Alguns estudos, no entanto, apontam que resultados
são obtidos quando as vestes são utilizadas
por (longas) 72 horas.
REPOSITORES
NUTRICIONAIS. Muito se fala sobre os suplementos
alimentares, e a revista possui uma sessão
própria sobre isso. Para não passar
em branco, vamos olhar um artigo publicado em 2006,
com uma história curiosa. Um dos autores,
um professor americano que trabalha com nutrição
esportiva, estava no supermercado e, ao comprar
um achocolatado pronto, viu que sua concentração
de carboidratos era similar ao das bebidas esportivas
disponíveis no mercado. Nasceu então
uma pesquisa comparando os efeitos de água,
bebidas esportivas e leite achocolatado na recuperação
de exercício, medida através de uma
nova série de exercícios duas horas
após. O leite achocolatado venceu.
Não
quero com isso dizer que suplementos não
são importantes ou úteis, mas sim
que na maioria das vezes os alimentos "normais"
irão dar conta do recado. Seja um ou outro,
fique registrado que a ingestão de carboidratos
e proteínas logo após o término
do treino parece ser benéfica em termos de
agilizar a recuperação de tecidos
danificados.
RECUPERAÇÃO
ATIVA. A recuperação ativa
consiste na realização de exercícios
leves após ou no meio de uma série
principal, como o famoso "trote" ao final
do treino. Apesar de acelerar a remoção
de lactato sanguíneo, voltamos ao problema
de que o lactato em si pouco tem a ver com a fadiga
no pós-exercício. Com isso, a justificativa
de que a recuperação ativa funciona
por manter a circulação de sangue
mais elevada, facilitando a remoção
de metabólitos prejudiciais (principalmente
lactato, se acreditava) ao funcionamento muscular,
não se sustenta, e os mecanismos reais da
recuperação ativa também são
relativamente obscuros, Além disso, um dia
onde o treino é somente um trote leve também
pode ser encarado como uma forma de recuperação
ativa, desde que não sejam 20 km de trote
leve...
A
lista de técnicas para facilitar a recuperação
poderia seguir, cada vez com métodos menos
ortodoxos, porém a explicação
sobre seu real funcionamento e eficácia se
tornaria mais do mesmo que acabamos de ver. Ou seja,
poucas evidências em favor do método,
às vezes pela falta de estudos e não
de resultados positivos, quase sempre com alguma
indicação de que a técnica
funciona em níveis moderados, porém
de que seu uso exagerado pode ser deletério.
A
mensagem desta revisão parece ser que "alguma
coisa é melhor que coisa nenhuma" e
possivelmente um trote leve no fim do treino, seguido
de um lanche, já irão lhe oferecer
algum benefício, caso se tornem rotina, podendo
ser somados ao uso ocasional das outras técnicas.
Fonte:
Revista Contra Relógio