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Rocinha pacificada recebe a curiosidade de 2 mil brasileiros em prova de rua inédita.

RJ, 22/01/2012 - Ocupada pelo governo estadual do Rio de Janeiro desde o fim do ano passado, em parte do projeto de pacificação de favelas, a Rocinha receberá a visita de brasileiros de várias regiões neste domingo, quando abriga uma inédita prova de corrida de rua em seus becos, ruas e escadarias. Grande parte dos participantes inscritos leva à corrida a curiosidade de saber como funciona a célebre comunidade de quase 70 mil habitantes, que até pouco tempo tinha rotina dominada pelo tráfico de drogas.

Localizada em um dos pontos mais privilegiados da paisagem do Rio de Janeiro, entre os bairros da Gávea e de São Conrado, a favela receberá atletas de mais de dez estados, de todas as regiões do país. Dois mil corredores participarão da prova "Rocinha de Braços Abertos" neste domingo (dia 22), com largada prevista para 8h (horário de Brasília). A disputa acontecerá em versões de 5km e 10km.

Especialistas da topografia peculiar e dos desafios físicos de subir a favela, os atletas moradores da Rocinha tiveram inscrição gratuita na prova. Outros 250 dos residentes locais foram contratados para trabalhar na organização do evento. Neste ideal de espírito de congregação com o poder público, a corrida também contará entre os participantes com uma equipe do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

Mesmo em seu tempo de violência, a Rocinha sempre recebeu turistas do Brasil e do exterior, em busca da vista privilegiada da orla carioca e, principalmente, do fascínio da vida em favela, em improviso e riscos decantados através de filmes brasileiros bem-sucedidos e da cultura do funk. É esta a combinação que entusiasma os participantes da prova de domingo.

 "Não conheço o Rio, vou unir as duas coisas no domingo. Tenho uma curiosidade grande de saber como funciona a comunidade. A gente vê as coisas pela televisão, mas não tem noção do que seria", diz o paulista Claudio Silva de Souza, 44 anos, que levará o sobrinho adolescente para a corrida.

"É uma ideia de participar da inclusão dos morros cariocas no cenário da cidade. Sem dúvida este é um atrativo para todo mundo que vai participar", conta o mineiro Miguel Delgado, participante habitual de corridas de rua.

O discurso comum dos atletas que viajarão ao Rio para a disputa da prova é de que no domingo contarão com um acessório extra em seu kit de corrida: a câmera fotográfica.

Os participantes fazem questão de registrar a passagem esportiva por um território quase proibido em um passado nada distante.

"A câmera vai sempre comigo. Antes eu passava na porta e ficava curiosa. É um momento oportuno, o esporte não tem limites, não tem barreiras. Conhecer lugares correndo é muito interessante", diz a mineira Carolina Borges, que vai ao Rio com o namorado.

Miguel Delgado participa habitualmente de corridas de rua e lidera uma equipe em Belo Horizonte chamada de "Baleias", que terá quatro representantes no Rio. O atleta mineiro diz que também registrará a prova na Rocinha em fotos, que alimentarão um blog pessoal dedicado à modalidade.

Inscrito para a prova deste domingo, Miguel Delgado encara o evento como uma oportunidade histórica, se a organização da prova de rua poder ter mais edições, em caso de sucesso prolongado do projeto de pacificação.

"A gente não sabe o resultado, se essa pacificação vai se manter ou não. Se der certo, pode ser um dos primeiros momentos de união da sociedade, da comunidade com o resto da cidade. Pode ser um momento histórico", afirma o atleta mineiro.

Trajeto de subida, o maior desafio da prova

Além do lado folclórico de percorrer vielas de uma favela internacionalmente famosa, a prova na Rocinha oferece a seus participantes o desafio de uma disputa esportiva que aponta para cima, com a maior parte de percurso localizado em subidas.

Esta particularidade faz com que os atletas precisem se adequar, improvisando treinos específicos para subidas e se munindo de informações a respeito do traçado.

"Eu adaptei meus treinos. Aqui em Belo Horizonte a gente treina em subidas. Existe uma expectativa. Eu conferi o percurso pela internet, estou ansiosa. Venho fazendo um treino muscular, coisa mais especifica, pelo fato de a corrida ter bastantes subidas", afirma Carolina Borges, atleta da modalidade há oito anos.

5km: Tem logo no início 2km de subida pela Estrada da Gávea, até passar no Portão Vermelho que dá acesso ao Parque Ecológico, onde as trilhas com cerca de 1km irão acirrar a disputa. Ao sair do parque o percurso segue pela Rua 1, onde becos e escadarias vão proporcionar aos atletas contato bem próximo com a comunidade, até chegar à passarela, na reta final da prova.

10km: O percurso é o mesmo da prova de 5km, até a saída do Parque Ecológico, quando os atletas seguem para enfrentar a subida do Laburiú, onde vão encarar uma ladeira bem íngreme com aproximadamente 500 metros. Em seguida 600 metros de mata fechada e muita trilha em terra, até sair na Estrada da Gávea. Neste ponto os corredores irão se deparar com o contraste do Condomínio das Mansões e a comunidade, entrando no Beco 199. A partir daí os participantes subirão uma grande escadaria e descerão por becos e vielas até chegar na entrada da Rua 1, onde passarão pelo Becos Sesario e Galo Nervoso, até chegar na passarela para concluir o traçado.

A Prova

A prova masculina foi bem disputada, com Clodoaldo Azevedo, Jocemar Fernandes e José Frazão buscando a liderança. Clodoaldo foi o primeiro a cruzar a linha de chegada com um tempo de 40min41.

Morador de Petrópolis, ele está acostumado com terrenos acidentados, mas ainda assim encontrou muitas dificuldades no percurso. “Foi muito difícil, tinha muita trilha, muita subida inclinada, muita escadaria. Esta foi a primeira vez que eu corri este tipo de prova e sabia que o percurso seria cruel”, conta. “E, além de tudo, ainda me perdi durante o percurso. Não estava bem sinalizado, fui para o local errado umas quatro vezes”, reclama.

O segundo colocado foi Josemar Fernandes, que correu os dez quilômetros em 40min52. “Foi bem disputado, o percurso é muito difícil”, explica. O terceiro colocado foi o 3º Sargento da Polícia Militar José Saraiva Frazão, que fez o tempo de 41min07. “Foi bem diferente do que eu estou acostumado. Quanto à vista, não deu para ver nada, só escada, cachorro latindo e criança chorando. Eu já tinha participado da prova no complexo do Alemão, mas aqui é bem diferente, tem muita escada”.

Erro provoca troca de posições na prova feminina - A prova feminina de dez quilômetros foi disputada metro a metro. A corredora Juliana Bomfim foi a primeira a cruzar a linha de chegada, mas quem levou a medalha de primeiro lugar foi a soldado da PM Gisele Barros de Jesus. Isto porque o responsável do Bope que estava guiando as corredoras levou Juliana e outro grupo por um caminho alternativo 200m mais curto do que o trajeto original. Em função disto, Juliana teve tempo descontado pela organização e perdeu sua posição.

Gisele Barros diz que escapou do problema, pois estava na frente e o guia estava atrás dela. A soldado gostou da corrida e de ter representado a Policia Militar. “Eu já tinha participado da corrida no morro do Alemão, mais aqui o percurso foi bem mais difícil”, compara.

Juliana Bomfim ficou com o tempo de 51min33 e, apesar de toda a confusão, disse que entende os problemas e planeja participar novamente ano que vem. “Foi super interessante e difícil o percurso. É bom também para vermos como está a comunidade. Eles precisam de investimento, não é só pacificar, tinha muita sujeira e esgoto”, conta.

O terceiro lugar ficou com Ana Paula Nascimento, que fez o tempo de 56min21. “Achei a corrida difícil, muito diferente dos percursos planos que estamos acostumadas”, diz.

Policiais do BOPE correm na Rocinha

Em novembro, uma operação realizada pelas forças armadas brasileiras e a polícia militar estadual pacificou a região, eliminando a atuação dos traficantes de drogas. Agora, em vez de correr atrás de bandidos, os policiais do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais) vão em busca de outra vitória na Rocinha, na corrida.

O Sargento Dantas, do Bope, é um dos policiais que participou da ação em novembro e que correrá pelas vielas no domingo. Além de seus colegas, participarão soldados da Marinha e da Brigada Paraquedista. “Minha expectativa é chegar entre os 20 primeiros”, diz Dantas, que participou do Desafio SP Rio.

Ele afirma que vê a Rocinha com outros olhos hoje. “O policial tem que ser inteligente. Estamos em um momento de pacificação”, conta. Segundo o sargento, o Bope ainda está presente no local, como continuidade do trabalho realizado em novembro.

Dantas reforça a iniciativa de beneficiar a comunidade com diversos aspectos da prova. “A corrida em si tem várias vertentes (positivas), como a comunidade trabalhar no evento e os cursos de capacitação”, ilustra.

“Como o nome já diz (Rocinha de Braços Abertos), a corrida é para a inserção da Rocinha na sociedade em geral. É a união da comunidade, da sociedade e da Polícia Militar. Todos ganham”, define.

Fonte: WebRun

 

 

Félix Luis / Direção Geral
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